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terça-feira, 24 de janeiro de 2012

A vida de Frank

Estava lendo a Runner´s World deste mês, com espírito elevado e pensando nos planos futuros. Quando, dentre tantas notícias sobre saúde, competição e imagens de ar livre, me deparo com a história de Frank Shorter. Nunca tinha ouvido falar no ser humano. Pensei: "ok, deve ser mais uma história de sucesso de mais um corredor". Meu pequeno desdém tem um motivo: todo herói parece ter sido só sucesso e algumas superações. Mas não é o caso.

Ele foi um dos mais importantes atletas americanos do final do século passado, no quesito corrida. Mas ocultou durante toda a vida uma história macabra que assombrou seus pensamentos a vida inteira. Vou copiar alguns trechos porque eles falam por si próprios. Se quiser ler a matéria completa (que muito maior também fala de sua carreira como atleta), clique aqui ou compre a revista (se pedir, eu empresto). Ela era filho do médico generalista Dr. Samuel Shorter, homem querido e admirado na cidade onde viviam.


"Frank Shorter não guarda fotografias do pai, Samuel. Segundo de 11 filhos, cinco meninos e seis meninas, Frank é o que mais se parecia com ele. Os dois tinham o mesmo olhar indagador, a cabeleira farta e o perfil afilado e aristocrático. Durante a infância de Frank, os moradores da cidade de Middletown, no estado de Nova York, comentavam com frequência o quanto oso dois eram parecidos. A intenção era fazer um elogio, mas assim como tudo que estava ligado ao pai, esses comentários despertavam um medo incontrolável e secreto em Frank."

"Ele não ia me bater no carro. Ele deixaria para mais tarde, em casa, onde ninguém podia vê-lo."

"Recentemente, Frank decidiu quebrar o silêncio. O primeiro motivo para isso foi a morte de seu pai, em junho de 2008, em Middletown. Frank foi a sua cidade natal para participar de uma prova e visitou seu pai, internado em estado terminal. 'Olhando em seus olhos, eu senti um grande alívio', diz Frank. 'Ele não podia mais me machucar. Ele não podia machucar minha mãe, nem meus irmãos e irmãs. Ele não podia mais machucar ninguém. E eu nunca teria que pensar nele de novo.

Entrento, com a morte do pai, Frank sentiu-se inquieto. Velhas lembranças voltaram a assombrá-lo, até explodirem, dois anos mais tarde, antes de uma prova no Missouri.

Frank havia ido dar uma palestra com seus colegas de corrida Bill Rodgers e Dick Beardsley. Os três foram a um colégio de ensino médio que abrigava menores infratores e que receberria as doações arrecadadas na prova. 'O organizador do evento nos pediu para conversra com alguns jovens e fazer um breve discurso motivacional no auditório', conta Frank. 'Olhei para todos aqueles jovens sofridos e percebi que eu era um deles."

"'Falei sobre como eu me sentia quando estava deitado na cama, quando era criança, ao ouvir os passos do meu pai na escada', conta Frank. 'Como ententava adivinhar seu humor e sobre o esforço diário que nós, seus filhos fazíamos para nos mantermos fora do caminho dele. Falei sobre a busca por uma válvula de escape para o medo e o ódio que sentia, e sobre como encontrei isso na corrida. Admiti que corria para fugir. E descrevi a culpa que sentia por não ser capaz de salvar toda minha família."

"'As pessoas merecem saber a verdade', disse Frank. 'Acho que eu mereço a verdade. E meu pai? Cheguei à conclusão de que ele merece piedade, mas que também precisaria responder à justiça. Não é certo que ele fique sem pagar pelo que fez.'

Meu pai tinha uma personalidade de médico e monstro. Ele dedicava carinho e amor á comunidade e terror e violência para aesposa e os filihos.'"

"Em 1948, (...) durante uma visita à Flórida, Frank levou a primeira surra. 'Eu estava correndo e gritando na estrada e meu pai me bateu com o cinto porque eu tinha sujado a fralda.' Frank diz que reprimiu aslembranças de muitas das surras que vieram depois, mas que se lembra claramente de quatro ou cinco episódios especialmente violentos. 'Essas surras aconteciam com tanta frequência, comigo e com meus irmãos, que eu chegava a pensar nelas quase como uma rotina', diz."

"Os filhos do Dr. Samuel afirmam que, além da violência física, ele também praticava tortura psicológica. 'Ele era mestre em explorar a insegurança e os defeitos de cada um de nós', diz Barara duPlessis, de 52 anos, irmã de Frank.

O atleta concorda que os machucados mais profundos talvez sejam os emocionais. 'Nós nunca conseguíamos relaxar na presença dele. A única atenção que ele me dava era quando me ensinava a ter disciplina.' (...) Algumas vezes o ódio e a crueldade de Samuel chegavam a níveis que ultrapassavam o limite da razão: além das surras de cinto e dos jogos psicológicos, duas irmãs de Frank também acusam o pai de estupro. (...) 'Acho que o abuso sexual fazia parte de um programa abrangente de opressão, para manter os filhos sob total controle', diz ela.

Ao que tudo indica, os vizinhos nunca suspeitaram de que o homem ilustre fosse outra pessoa dentro de casa. (...) 'Nós, crianças, sentíamos muita vergonha e culpa e nunca falávamos sobre isso, nem mesmo entre a gente.'"

"'Minha mãe me disse que, toda vez que nos deixava sozinhos em casa com nosso pai, algo ruim acontecia', diz Frank. 'Ela tinha tanto medo dele e negava seu comportamento violento em um nível tão absurdo que não conseguia dizer o que era algo ruim. Então, ela simplesmente resolveu não nos deixar mais sozinhos com ele. Por fim, exceto em raras ocasioões, ela simplesmente deixou de sair de casa.'"

"Fank continuou apanhando até mais ou menos os 10 anos de idade, época em que já estava grande o suficiente para resistir ou revidar às surras do pai. 'Era mais fácil me bater quando eu era pequeno', diz. Então Samuel parou de gredir Frank, ao menos fisicamente."

"Para Frank, se fosse ele o escolhido, era quase como um alívio. Ficar deitado ouvindo o pai surrar um de seus irmãos era quase pior qdo que apanhar.

"Geralmente, Frank sentia o cheiro de álcool no hálito do pai e isso era ao mesmo tempo bom e ruim. Ruim porque o tornava ainda mais violento. E bom porque,estando bêbado, ele podia se confundir e usar a ponta do cinto e não a fivela."

"Frank decidiu que seu pai nunca ficaria perto das crianças e os netos cresceram sem ter contato com o avô. 'E meus filhos nunca questionaram isso. Acho que eles seentiam que havia alguma coisa errada entre mim e ele. E, por causa do meu pai, eu nunca encostei um dedo nos meus filhos. Meu objetivo na vida sempre foi por um fim ao ciclo de violência', diz.

'A verdade só ajuda', afirma Frank. 'Talvez algumas crianças que estejam passando pel amesma situação que eu passei busquem ajuda. Gostaria que eu, meus irmãos e irmãs tivéssemos recebido ajuda. Queria que meu pasi tivesse recebido ajuda.'"


Não é bonito, não vai fazer seu filho mais obediente. E talvez essa seja a história que ele conte a seu respeito. Pense nisso. Por sorte Frank buscou os esportes. Poderia sim ser mais um delinquente criado em casa, feito à mão, mão em riste.

Se não quer, não tenha filhos. Se tem filhos, queira-os bem.

Um abraço.


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