sexta-feira, 27 de abril de 2012

Um dia frio.

"Um dia frio, um bom lugar pra ler um livro", já diria meu amigio Djavan ao pé da minha memória. Dia cinza, chuvoso, frio. Antes fosse ler um livro.

Então vem o Lobão e interfere na frequência e diz que "chove lá fora e aqui faz tanto frio". Talvez a palavra realmente que se some seja... frio.

Hoje, mal cheguei no meu trabalho e fui acionado para uma emergência em domicílio: "Tem um vermelho doutor". Pega o casaco, corre pra ambulância e vai perguntando pelo caminho:
  • Quem é?
  • Onde mora?
  • O que aconteceu?
  • Qual a idade?
  • O que foi feito?
  • Quanto tempo até o destino?
E assim vai.

Quando ouvir a sirene, abra caminho!
Chego à casa da paciente. Muito sangue para todo lado, muito choro para todo lado, parcia cena de guerra. Pulso: zero. Reflexos: zero. Respota às medidas de reanimação: zero. Óbito constatado. O trânsito doentio de São Paulo não ajudou, muito menos temperado com a amarga chuva que caia sobre o nosso parabrisa. Até que dessa vez os carros abriram passagem para a ambuância, o que é raro. Talvez tenham entendido que talvez hoje fosse realmente uma emergência em letras cintilantes.

Anos de vida numa cama dependente de respirador, drogas e muita dedicação familiar. A família toda orbitava ao redor daquela vida frágil e sem retorno. E isso não é raro. No apartamento de um quarto, o único quarto era daquela criança, com equipamentos, cilindros de oxigênio, enfermagem 24h/dia. Toda a família (pais, irmã) morava na sala.

Agora, um quarto vazio, uma família sem eixo. Vão ter que redirecionar o eixo, recolocar as peças, refazer os laços.

Boa sorte, fiquem em paz, que a menina já se foi. Não pude ajudar dessa vez.

Um abraço.


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